![](http://media.bonnint.net/la/0/52/5224.jpg)
SANTANA – ABRAXAS
O Texas é o estado americano cuja cultura mais se aproxima do país
vizinho, o México. Musicalmente, porém, de todos os elementos que as bandas
daquele estado absorveram, falta um que nunca foi devidamente incorporado: a
latinidade. Aquele quê a mais que caracteriza a música da região e lhe dá o seu
maior acento étnico. Coube, portanto, a um guitarrista naturalmente mexicano,
mas erradicado na América do Norte, fazer a fusão com a devida naturalidade:
Carlos Santana.
O músico, que deu o próprio sobrenome à banda que criou, não poderia
ter escolhido melhor lugar para montar sua base de operações do que o sempre
onírico estado da Califórnia, mais precisamente na cidade de San Francisco. Em
agosto de 1969, aos 22 anos de idade, ele já estabeleceu dois marcos em sua
carreira: lançou o primeiro disco de sua banda e realizou uma avassaladora
apresentação no festival de Woodstock, que ocorreu na costa leste do país, no
outro lado do continente. Um ano após, era lançado Abraxas, seu segundo disco,
sequência natural e lógica do que já tinha sido realizado artisticamente na
estréia.
Liderando um grupo que, além dos básicos guitarra, baixo, bateria e
teclado, ainda continha dois percursionistas, Santana pôde deixar fluir a
mistura de rock, jazz, salsa e misticismo que lhe tornou famoso, sendo que,
liderar, no presente caso, não significa monopolizar. Esse não é o disco de um
guitarrista com uma banda de apoio. É o disco de uma banda, onde todos
interagem para o melhor resultado musical e, para constatar isso, basta observar
que, das nove faixas do disco, apenas duas tem a assinatura de Carlos Santana.
Mike Carabello, um dos percursionistas, responde pela autoria da instrumental
que abre o álbum, com levada hipnótica, gerando o clima para a clássica Black
Magic Woman, que é, originalmente, um blues composto por Peter Green, do
Fleetwood Mac.
Faixas como Oye Como Va, de Tito Puente, Se a Cabo e El Nicoya, de José
Areas, o outro percursionista, deixam bem claro o apego às tradições da terra
natal e contribuem para reforçar o clima de jam que permeia todo o disco.
Mother´s Daughter e Hope You´re Feeling Better, as músicas de Gregg Rolie, o
vocalista e tecladista, são boas, mas sem nada de extraordinário. Cumprem bem o
seu papel dentro do disco, sem comprometer, mas também sem influirem
substancialmente dentro do resultado. Restam apenas as já mencionadas duas
músicas de Carlos Santana, ambas instrumentais. Uma é a maravilha jazzistica
Incident at Neshabur. A outra merece uma menção à parte
Samba Pa Ti é uma das mais belas músicas já feitas no universo. Uma
pérola melódica comparável a qualquer coisa dentre o que já foi feito de melhor
quando se fala de música. Começando meio melancólica e evoluindo, no seu
decorrer, para um ritmo mais vibrante, a música consegue, sem letras, transmitir
uma miríade de emoções como poucos seriam capazes de repetir com a mesma sútil
intensidade: esperança, amor, saudade, alegria e tristeza estão espalhadas ao
longo de quatro minutos e meio de inspiração.
Abraxas é um disco que demonstra que o padrão para a música deve sempre
ser a fuga de padrões. Não é preciso, e nem recomendável, o esforço para
enquadrar-se em uma determinada fórmula, em um lugar comum. O que não falta por
aí é a existência de artistas que rezam por essa cartilha, e que podem até ser
bemsucedidos por um determinado tempo, mas serão sempre mais lembrados por suas
influências do que por sua própria obra.
Nenhum comentário:
Postar um comentário